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O Reino e a justiça

22 Nov, 2016

A Missão Integral se estriba na recuperação de dois conceitos. Em primeiro lugar, o conceito de justiça no tempos dos profetas hebraicos. Ele aparece nos escritos dos profetas, que vão dizer, como Amós (5.24), que a justiça deve correr como um rio que nunca seca. Todos os profetas hebreus levantaram a questão da justiça, e são eles que introduzem-na como um critério transcendente: a justiça, então, não é mais uma relação de poder entre fracos e fortes, entre vencedores e vencidos; ela é vista como uma demanda divina. O Senhor exige justiça; exige que os pobres sejam tratados com decência; exige, de fato, que não haja pobreza, e sim, libertação econômica, social e política. Tal concepção fica clara em instituições como a do jubileu e a do ano da remissão, mencionados nos livros de Levítico e Deuteronômio.

A justiça, portanto, nasce no coração de Deus e é introduzida na história humana pelos profetas hebreus. São eles que trazem a noção de justiça para a história, e trazem-na como um dado transcendente, e não como uma conclusão imanente – ou seja, não foram os seres humanos pensando sobre si, sobre a história, sobre a sociedade que chegaram à noção de igualdade, de justiça, de inclusão social dos pobres. Foram os profetas hebreus que trouxeram este elemento para a história humana, esta visão de que há uma demanda da parte de Deus por igualdade e dignidade para todos os seres humanos; pelo fim da pobreza, pelo respeito ao diferente, pelo abrigo ao estrangeiro, pela noção de direito humano. Isso vem diretamente de Deus. A ideia está espalhada por todo o Antigo Testamento, desde a lei de Moisés que é reforçada pelo profetismo hebraico que, na verdade, é um trabalho de recuperação do espírito da lei de Moisés, que clama por justiça. Este é o primeiro referencial da Missão Integral. É possível ver isso nos escritos de René Padilla, Samuel Escobar, Orlando Costas, Pedro Araña e muitos outros.

O outro referencial da Missão Integral é a recuperação da noção do Reino de Deus e sua justiça, a ideia de que esse Reino é um outro sistema que se opõe ao sistema vigente – tanto ao capitalismo quanto ao comunismo. Trata-se de um outro sistema, que vem não para estar ao lado dos regimes em pauta, mas para substituí-los, para erradicá-los. Isso aparece no profeta Daniel que, quando responde ao sonho de Nabucodonosor, fala sobre a pedra que é lançada por mãos não humanas contra a estátua. A estátua, no sonho de Nabucodonosor, sintetiza todas as tentativas humanas de resolver o problema humano sem considerar a hipótese de Deus ou sem considerar a revelação divina, tudo o que os homens tentaram em todos os níveis: o feudalismo, o capitalismo, o comunismo. E a pedra é o Reino de Deus, que vem e derruba a estátua, triturando-a, desfazendo todos seus componentes até transformá-la em pó. Um pó que é varrido pelo vento, de modo que da estátua não fica nem lembrança. A pedra cresce, alarga-se e toma toda a terra, ou seja, uma nova realidade assume o controle da história – e essa nova realidade é o Reino de Deus.

DISCURSO E PRÁTICA

O que se pleiteia, com a Missão Integral, é um discurso pastoral a partir da fé. Este discurso pastoral da fé, a partir da Missão Integral de Deus, é fruto da proposta missiológica surgida nos Congressos Latino-Americanos de Evangelização (os Clades), na década de 1960, que propugnava que não se pode “evangelizar sem considerar o contexto do evangelizando”. Sob tal ótica, a boa nova que se anuncia emana da realidade da chegada do Reino de Deus, que vem como proposta para a história. A tese daquilo que ficou conhecido como Missão Integral não se propôs a alterar as bases da fé bíblico-histórica, e sim, a ampliar os seus efeitos.

Um discurso pastoral da fé a partir da Missão Integral deve partir da premissa de que Deus se revela na história. De fato, não há, nas Escrituras, nenhuma revelação que não esteja ligada ao tempo histórico, mesmo quando se refere ao futuro. Na escatologia, Deus está apontando para a continuação da história, e não negando-a, tampouco tirando dela a Igreja. Quando, no fim dos tempos, a Nova Jerusalém desce, o texto afirma que Deus vem aos homens: então, ele será o Deus deles e eles, o seu povo. As Escrituras dizem que não haverá mais noite, porque Deus será a luz; nem haverá mais mar, porque cessarão todas as divisões entre os homens. Se não vivêssemos a história, ou se não experimentássemos a alternância entre dia e noite, aquela palavra não faria qualquer sentido para nós. Dizer “não haverá mais noite” nos remete para onde? Ora, remete-nos à história. Portanto, não há como Deus nos falar fora dela. Um Deus que não aparece na história; que não está envolvido com ela; que não tem nada a dizer sobre ela ou que não fala a partir da história, não nos serve. E por quê? Porque somos seres dependentes, o que significa que não conseguimos viver fora da história. Estamos presos a ela, como a alma o está ao corpo. A um ser humano não é possível se ver para além da história, que tem conteúdo e, necessariamente, forma.

Somos seres dependentes, parte do que movimenta a história. Esse é o primeiro pressuposto sobre o qual um discurso pastoral da fé, a partir da Missão Integral de Deus, deve se assentar. Portanto, tudo que nos afeta o faz a partir de nossa dependência. Se algo não nos afeta em nossa dependência, então não nos afeta em coisa alguma. É a partir dessa constatação que podemos falar de um discurso pastoral da fé para o dia a dia. Neste cenário pós-moderno, a Missão Integral surge como resposta bíblica e profética aos anseios humanos. Está inserida na práxisda teologia, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da Igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada. Se o evangelista chega no lugar da evangelização e encontra, no caminho, uma criança brincando no esgoto ao ar livre e bate à sua porta para falar aos seus pais, terá duas opções. Ele anunciará o poder transformador de Jesus de maneira conceitual – sem, contudo, oferecer socorro para que a família saia da miséria – ou lhe trará as boas novas da salvação que podem tirar aquelas almas do inferno, assim como tirar o inferno delas, e fará alguma diferença para a realidade daquela criança, naquela circunstância. Isso deriva da ênfase sobre a prática da Igreja voltada para o cotidiano, parte da proposição do professor René Padilla, um dos pioneiros na reflexão do tema junto com os outros teólogos nas décadas de 1950 e de 60, e que foram apresentadas nos Clades, realizados em Bogotá, na Colômbia (1969), Huampani, no Peru, em 1979, e, por duas ocasiões – 1992 e 2000 – na capital equatoriana, Quito.

A Missão Integral diz que a pessoa será abençoada pela presença da Igreja na sua realidade, pois a Igreja não tolerará aquele estado de injustiça. Essa proposição se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mateus 24.14; Lucas 4.43); portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial, antecipada pelo profeta Daniel no capítulo 2 de seu livro e manifesta pela Igreja. Porém, só será implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí, há pecado pessoal e pecado estrutural. E, para pecadores que incorrem em uma só ou nas duas formas de transgressão, a Igreja propõe arrependimento. E só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal. Porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus, conforme Mateus 5.16.

IGREJA NO COTIDIANO

O chamado Pacto de Lausanne, tido, equivocadamente, como o nascedouro da noção de Missão Integral, é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça. Protagonizado pelo teólogo anglicano John Stott, já falecido, o encontro promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana e as contribuições africanas e asiáticas. O resultado deste inusitado e bendito amálgama foi sintetizado na frase: "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”, onde a concepção de “Evangelho todo” é compreendido como o poder de Deus para a salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade e dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça – onde "o homem todo"é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, estético e ético, que a tudo afeta e por tudo é afetado e que, alcançado pelas boas notícias do Reino, começa a mostrar os sinais da presença desse Reino, que se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.

Já a proposição "todos os homens" compreende a totalidade das etnias humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do Evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mateus 25.31-46). A Missão Integral é ortodoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da Missio Dei, uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Trino Deus.

A Missão Integral faz exegese histórico-gramatical; sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplicá-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao tempo contemporâneo. Por isso, sua abordagem sobre os fatos serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, e nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.

O referencial basilar da Missão Integral é a doutrina da presença (Lucas 17.21) e da iminência do Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o governo do Ungido pela implantação da sua justificação e justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação e sinalizadora da presença e do princípio do Reino de Deus, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça. A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do Evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas, conforme Mateus 11.5.

Ariovaldo Ramos é pastor, teólogo e conferencista

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